Por que parte da classe trabalhadora se identifica com valores conservadores?

Por Mateus Ferreira de Araújo
Cientista Político

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O apoio de camadas populares a projetos políticos de direita não é fenômeno novo nem exclusivamente brasileiro. Da França pós-revolucionária ao interior de Minas Gerais em 2026, a figura do “trabalhador de direita” aparece em eleições, manifestações e no debate público. Entender sua origem exige voltar no tempo e observar quatro pilares que se repetem na história: religião, ordem, propriedade e desconfiança do Estado.

1. A Revolução Francesa e os camponeses da Vendeia

Em 1793, enquanto Paris celebrava a Revolução, camponeses pobres da região da Vendeia pegaram em armas contra o novo governo. Eles pagavam impostos ao antigo regime e morriam de fome. Ainda assim, lutaram pela monarquia e pela Igreja. O historiador Jules Michelet registrou que, para aquele camponês, o padre da paróquia era mais próximo que o burocrata revolucionário da capital. A revolta foi massivamente camponesa, com apoio da nobreza local, e teve como estopim a defesa da religião contra as medidas anticlericais de Paris.

2. A pequena propriedade como valor político

No século XIX, Alexis de Tocqueville notou que, nos Estados Unidos, o apoio à ordem vinha dos pequenos proprietários. Em A Democracia na América, argumenta que a ampla distribuição da propriedade fundiária gerava interesse pela estabilidade das instituições. Quando a propriedade é acessível ao povo, “os homens atribuem alto valor ao direito de propriedade porque veem nele um interesse pessoal”.

No Brasil, esse fenômeno ganhou força com a pequena agricultura no Sul e com o pequeno comércio nas periferias. O trabalhador de direita não é, necessariamente, o grande latifundiário. É o motoboy que financiou a moto, o feirante que montou a barraca, o pedreiro que comprou o lote. Para ele, discursos sobre taxação ou instabilidade soam como ameaça direta ao pouco que conquistou.

3. Religião, moral e comunidade

Da Europa do século XVIII ao Brasil de 2026, igrejas são centros de organização social para a população de baixa renda. O voto evangélico no Brasil tem se concentrado em candidatos de direita desde a redemocratização, com forte base em pautas de costumes e comunidade. Pesquisas do Datafolha mostram que eleitores evangélicos apresentam maior identificação com valores conservadores e com candidatos de direita que frequentam templos.

Napoleão III, no século XIX, já usava a aproximação com o clero católico e a defesa da moral para ganhar apoio popular na França rural.

4. O Estado como patrão distante e fiscal

Para o trabalhador informal e o autônomo, o Estado muitas vezes aparece primeiro como fiscal. Na Inglaterra de Margaret Thatcher, parte do voto operário migrou para os conservadores entre 1979 e 1987, atraída pelo discurso de redução de impostos, venda de casas populares e crítica à burocracia. Os chamados “Essex men”, trabalhadores de colarinho azul que compraram suas casas, tornaram-se base eleitoral da direita britânica.

5. O trabalhador de direita no Brasil de hoje

No Brasil, o fenômeno ganhou corpo com a urbanização e a expansão do trabalho por conta própria. O IBGE aponta que 25,2 milhões de pessoas atuavam por conta própria em 2022, maior contingente da série histórica. A expansão evangélica deu capilaridade a um discurso de ordem, família e empreendedorismo. A violência urbana fez a pauta da segurança falar mais alto que a pauta salarial em muitos bairros.

O resultado é um eleitor que pode usar SUS, receber Bolsa Família e, ainda assim, votar em candidatos de direita. Não por contradição, mas por hierarquia de valores: primeiro a proteção da casa, da igreja e do pequeno negócio; depois, a discussão sobre o tamanho do Estado.

6. Críticas de pesquisadores brasileiros ao fenômeno

Pesquisadores brasileiros têm apontado limites e contradições na adesão de trabalhadores a pautas conservadoras. O sociólogo Jessé Souza argumenta que parte desse apoio se explica pela “ralé estrutural”: setores populares que, por estarem historicamente excluídos do acesso à educação e ao capital cultural, incorporam valores da classe média como forma de distinção, mesmo que isso vá contra seus interesses materiais objetivos. Para Souza, a direita captura esse eleitor ao oferecer reconhecimento moral em vez de redistribuição econômica.

Já a cientista política Esther Solano, em pesquisas sobre apoiadores de Jair Bolsonaro na periferia de São Paulo, identificou que o voto na direita entre trabalhadores se apoia em três eixos: “antipetismo moral”, medo da violência e defesa de uma “ética do trabalho” contra o que veem como assistencialismo. Solano destaca que muitos entrevistados criticam o Estado por “ajudar quem não quer trabalhar”, mesmo sendo beneficiários de programas sociais.

O historiador Lincoln Secco, da USP, resgata que o fenômeno não é novo no Brasil. No início do século XX, o integralismo já arregimentava operários com discurso de Deus, Pátria e Família. Para Secco, a direita brasileira historicamente disputa o trabalhador usando nacionalismo, religião e anticomunismo, deslocando o conflito de classe para o conflito moral.

Outro ponto levantado por André Singer, também da USP, é a tese do “lulismo conservador”. Singer sustenta que, após os governos do PT, uma parcela da base popular que ascendeu economicamente passou a defender pautas de ordem e a rejeitar políticas vistas como “ameaça” à nova condição de pequeno proprietário ou consumidor, ainda que tenha se beneficiado de políticas de inclusão.

Conclusão: classe e cultura andam juntas

A história mostra que posição política não é definida só pelo contracheque. É definida também por pertencimento, por medo de perder o pouco que se tem e por confiança em quem está perto. O “trabalhador de direita” nasce quando a ordem, a religião e a pequena propriedade parecem mais seguras que a promessa de mudança vinda de cima. As críticas acadêmicas lembram que essa escolha envolve contradições: busca por proteção simbólica e moral pode conviver com perdas materiais, e discursos de autonomia podem mascarar vulnerabilidades estruturais.

REFERÊNCIAS

DATAFOLHA. Eleições 2022: Perfil do eleitorado por religião. São Paulo, 2022.
ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. War in the Vendée. 2024.
IBGE. PNAD Contínua Trimestral: Trabalho por conta própria atinge 25,2 milhões. Rio de Janeiro, 2023.
JUDT, Tony. Pós-Guerra: Uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
PRICE, Roger. Napoleon III and the Second Empire. Routledge, 1997.
SECCO, Lincoln. A história do PT. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SOLANO, Esther. O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.
SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América. 1835.

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Mateus Ferreira de Araújo
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