Por Mateus Ferreira de Araújo – Cientista Político

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A relação entre o bolsonarismo e as comunidades cristãs brasileiras, especialmente evangélicas, tornou-se um dos fenômenos políticos mais marcantes da última década. O uso de símbolos religiosos, a mobilização de lideranças e a construção de narrativas morais foram estratégias centrais para consolidar o que analistas chamam de “voto de rebanho”: a adesão eleitoral coletiva, orientada pela autoridade pastoral e pela identidade religiosa.

1. A Teologia da Batalha Espiritual como Plataforma Eleitoral

O bolsonarismo adaptou para a política a “cosmovisão da batalha espiritual”, presente em segmentos neopentecostais. Nessa lógica, a disputa eleitoral deixa de ser programática e passa a ser existencial: o bem contra o mal, Deus contra o diabo, a família contra a ideologia de gênero. Jair Bolsonaro incorporou esse discurso ao se apresentar como “ungido” e ao afirmar que “o Estado é laico, mas o presidente é cristão”.

Essa retórica transforma o púlpito em palanque. Pastores alinhados passaram a pregar que votar em candidatos progressistas significaria pactuar com forças malignas. O resultado é a transferência da autoridade espiritual para a escolha política, reduzindo o espaço para o discernimento individual do fiel.

2. A Capilaridade das Igrejas como Máquina de Campanha

Com mais de 60 mil templos e alcance em 100% dos municípios, as igrejas evangélicas funcionam como rede de mobilização incomparável. Durante as eleições de 2018 e 2022, templos foram usados para distribuição de material de campanha, cadastro de eleitores e realização de cultos com participação de candidatos.

Lideranças bolsonaristas exploraram a estrutura de células, grupos familiares e correntes de oração para difundir mensagens políticas via WhatsApp e Telegram. A estratégia segue o modelo de “marketing de rede”: cada fiel se torna um multiplicador da mensagem, validada pela autoridade do pastor. A Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil chegou a lançar manifestos de apoio explícito.

3. A Pauta Moral como Cola Identitária

Três temas foram instrumentalizados para unificar o eleitorado cristão: 1) “ideologia de gênero” nas escolas; 2) legalização do aborto; 3) defesa da “família tradicional”. Esses pontos foram apresentados como ameaças diretas à fé cristã.

O episódio do “kit gay” em 2018, mesmo desmentido por agências de checagem, foi massivamente repercutido em cultos e grupos de oração. A mensagem era clara: votar contra Bolsonaro seria abrir caminho para a “destruição da família”. Essa simplificação da agenda pública em termos morais absolutos facilita o “voto de rebanho”, pois reduz a complexidade política a um teste de fidelidade religiosa.

4. A Sacralização do Líder e a Demonização do Adversário

Bolsonaro foi apresentado como “mito” e “escolhido por Deus”, enquanto adversários eram associados ao comunismo, à corrupção e à perseguição religiosa. Lives com pastores, imposição de mãos e orações públicas no Palácio do Planalto reforçaram a imagem de um presidente-pastor.

Essa sacralização cria um vínculo de lealdade que transcende a avaliação de governo. Ao mesmo tempo, a narrativa de que “igrejas serão fechadas” caso a esquerda vença instala um medo apocalíptico que mobiliza o voto defensivo.

5. Consequências para a Democracia e para as Igrejas

A estratégia foi eleitoralmente eficaz: em 2022, 62% dos evangélicos declararam voto em Bolsonaro no primeiro turno, contra 31% dos católicos. No entanto, gera dois efeitos colaterais: 1) Confunde-se missão religiosa com projeto de poder, politizando a fé; 2) Cria-se uma dependência entre púlpitos e gabinetes, onde o apoio político passa a condicionar acesso a recursos e políticas públicas.

O “voto de rebanho” não nasce da ignorância do fiel, mas da construção deliberada de uma identidade político-religiosa. Rompê-lo exige separar o Reino de Deus do reino dos homens, e devolver ao cristão o direito de votar com consciência individual, não por pressão coletiva.

6. Contrapontos: O Que Dizem os Críticos

A tese do “voto de rebanho” é contestada por parte da literatura e por lideranças religiosas. Cinco linhas de crítica se destacam:

6.1 Sobre a agência do fiel

Para a pesquisadora Magali Cunha e o antropólogo Alexandre Fonseca, o termo “voto de rebanho” subestima a racionalidade do eleitor evangélico. Fiéis combinam valores morais com avaliação de economia, segurança e corrupção. A adesão a Bolsonaro seria uma escolha dentro de um repertório conservador, não obediência cega.

6.2 Sobre a homogeneidade do campo evangélico

O sociólogo Clemir Fernandes e o pastor Henrique Vieira lembram que o segmento é plural. Igrejas históricas, setores batistas e grupos como “Evangélicos pela Democracia” e “Frente Evangélica pelo Estado de Direito” se opuseram publicamente a Bolsonaro em 2022. Reduzir todo o campo ao bolsonarismo apaga dissidências relevantes.

6.3 Sobre a origem da “batalha espiritual”

O teólogo Ronilso Pacheco e o antropólogo Juliano Spyer afirmam que a cosmovisão de batalha espiritual precede Bolsonaro e existe no neopentecostalismo desde os anos 1990. O ex-presidente apenas mobilizou uma linguagem já consolidada. Atribuir a ele a criação dessa retórica ignora a autonomia teológica das igrejas.

6.4 Sobre o peso da pauta moral

Os cientistas políticos Jairo Nicolau e Malu Gatto apontam, com base no ESEB, que entre evangélicos de baixa renda a avaliação do Auxílio Brasil e a percepção econômica em 2022 tiveram peso similar ou maior que os temas morais. O voto seria multifatorial, não exclusivamente guiado por pânico moral.

6.5 Sobre a sacralização de lideranças

O pastor Ariovaldo Ramos e a filósofa Marcia Tiburi destacam que a associação entre política e messianismo não é exclusiva do bolsonarismo. Outras lideranças à esquerda e à direita também foram tratadas como “salvadoras”. A diferença estaria no vocabulário religioso usado, não no mecanismo em si.

Esses contrapontos não negam a mobilização religiosa inédita pró-Bolsonaro. O debate está no grau de autonomia do fiel, na pluralidade evangélica e no peso relativo de fatores morais versus econômicos na decisão de voto.

Referências

ALMEIDA, Ronaldo de. Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. Novos Estudos CEBRAP, v. 38, n. 1, p. 185-213, 2019.

BOLSONARO, Jair M. Discurso durante cerimônia de posse. Brasília, 1 jan. 2019.

CONFEDERAÇÃO DOS CONSELHOS DE PASTORES DO BRASIL. Manifesto à Nação Brasileira. Brasília, 5 set. 2022.

CUNHA, Magali do Nascimento. O lugar das mídias no processo de politização dos evangélicos no Brasil. *Revista Eclesiástica Brasileira*, 2021.

DATAFOLHA. Intenção de voto por religião. Pesquisa 22-24 set. 2022. São Paulo: Datafolha, 2022.

FERNANDES, Clemir. Evangélicos e Política: entre a direita e a esquerda. Instituto Humanitas Unisinos, 2022.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022: Características gerais da religião. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2014.

NICOLAU, Jairo. O Brasil dobrou à direita. Zahar, 2024.

OUALALOU, Lamia. O Mito Bolsonaro: Como a extrema direita se apropriou da fé. São Paulo: Todavia, 2020.

RAMOS, Ariovaldo. Entrevistas concedidas CartaCapital, out. 2022.

SPYER, Juliano. Povo de Deus: quem são os evangélicos e por que eles importam. Geração Editorial, 2020.

AGÊNCIA LUPA. Kit Gay: o que é mito e o que é fato. Publicado em 28 ago. 2018.

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Mateus Ferreira de Araújo
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