Por Mateus Ferreira de Araújo – Cientista Político.

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Ao longo do século XX, os Estados Unidos consolidaram-se como a principal potência global, exercendo influência econômica, militar, tecnológica e cultural em praticamente todos os continentes. Após o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética em 1991, o país viveu o auge de sua hegemonia, assumindo o papel de liderança da chamada “ordem internacional liberal”. Contudo, nas últimas décadas, sinais de desgaste político, econômico e diplomático têm levantado questionamentos sobre a continuidade dessa supremacia.

O historiador Niall Ferguson argumenta que “o império americano está enfrentando uma crise de legitimidade”, sobretudo em razão das dificuldades em manter consensos internacionais e da crescente rejeição global às estratégias unilaterais de poder. Em um cenário internacional cada vez mais multipolar, marcado pela ascensão da China, pelo fortalecimento de blocos econômicos regionais e pela reorganização geopolítica da Eurásia, os Estados Unidos têm recorrido com frequência a mecanismos de pressão política, econômica e militar para preservar sua influência.

No Brasil, diversos pesquisadores e analistas de relações internacionais também têm apontado críticas à condução da política externa norte-americana. O cientista político Moniz Bandeira afirmava que os Estados Unidos historicamente atuaram para preservar sua hegemonia continental e global por meio de intervenções políticas, econômicas e militares. Em suas análises sobre a América Latina, Bandeira defendia que Washington frequentemente tratava governos independentes da região como ameaças estratégicas, utilizando mecanismos de pressão diplomática e econômica para influenciar decisões soberanas.

Da mesma forma, o sociólogo Theotonio dos Santos, um dos principais teóricos da Teoria da Dependência, argumentava que o sistema internacional reproduz relações de subordinação econômica entre países centrais e periféricos. Segundo sua interpretação, os EUA consolidaram um modelo de dominação financeira e tecnológica que dificultou o desenvolvimento autônomo das economias latino-americanas.

Outro importante intelectual brasileiro, Celso Furtado, alertava para os impactos da dependência econômica e cultural sobre países em desenvolvimento. Para Furtado, o predomínio das grandes potências econômicas produzia assimetrias estruturais que limitavam a soberania nacional e aprofundavam desigualdades internacionais.

A chantagem diplomática como instrumento de poder

Historicamente, a política externa norte-americana combinou elementos de cooperação internacional com ações de coerção estratégica. Durante a Guerra Fria, os EUA utilizaram sanções econômicas, intervenções militares e pressão diplomática para conter o avanço soviético e garantir sua esfera de influência. Um dos episódios mais emblemáticos foi a Crise dos Mísseis de Cuba, quando o governo de John F. Kennedy ameaçou responder militarmente à instalação de mísseis soviéticos em Cuba.

Na ocasião, Kennedy declarou que os Estados Unidos “não poderiam permitir uma base militar ofensiva soviética a apenas 90 milhas de suas costas”, evidenciando como a lógica da dissuasão e da ameaça tornou-se central na política externa norte-americana daquele período.

Entretanto, após os atentados de 11 de setembro de 2001, essa postura ganhou novos contornos. A chamada “guerra ao terror” ampliou significativamente o alcance das ações militares e das intervenções preventivas dos EUA, como observado nas guerras do Afeganistão e do Iraque. Para muitos analistas internacionais, essas ações contribuíram para desgastar a imagem internacional americana e aprofundar tensões geopolíticas.

O geógrafo brasileiro Milton Santos também criticava os efeitos da globalização conduzida pelas grandes potências econômicas. Segundo ele, a globalização “como perversidade” ampliava desigualdades e subordinava interesses nacionais às dinâmicas do capital internacional. Em sua interpretação, a concentração de poder econômico e informacional nas mãos de poucos países fortalecia mecanismos de dominação global.

O uso contemporâneo da pressão política

Nos últimos anos, especialmente durante o governo de Donald Trump, a política externa dos EUA passou a adotar uma postura ainda mais agressiva e transacional. O princípio do “America First” redefiniu alianças tradicionais e fortaleceu práticas de pressão econômica e diplomática.

Entre os principais exemplos estão:

  • A ameaça de construção de um muro na fronteira com o México, acompanhada da imposição de tarifas alfandegárias caso o governo mexicano não cooperasse com as políticas migratórias norte-americanas;
  • A retirada dos EUA do Acordo de Paris, além de ameaças de sanções comerciais contra países considerados desalinhados aos interesses estratégicos americanos;
  • As pressões exercidas sobre a Coreia do Norte para o abandono de seu programa nuclear, frequentemente acompanhadas de ameaças militares;
  • O uso crescente de sanções econômicas contra países como Irã, Venezuela, Rússia e China, transformando instrumentos financeiros em mecanismos de disputa geopolítica.

O diplomata e ex-ministro brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães sustenta que a política internacional contemporânea continua marcada por profundas assimetrias de poder. Segundo ele, as grandes potências utilizam instituições multilaterais, mecanismos econômicos e instrumentos financeiros como formas de preservar vantagens estratégicas sobre países periféricos.

Já o professor José Luís Fiori argumenta que a expansão do poder norte-americano sempre esteve ligada à competição permanente por influência global. Em suas análises geopolíticas, Fiori afirma que o sistema internacional opera sob lógica de disputa contínua entre potências, onde guerras econômicas, pressões diplomáticas e sanções tornam-se instrumentos recorrentes da política internacional.

Segundo o cientista político Joseph Nye, criador do conceito de “soft power”, a capacidade de influência sustentável depende menos da coerção e mais da construção de legitimidade, confiança e cooperação internacional. Nye alerta que “a chantagem pode gerar resultados imediatos, mas enfraquece relações estratégicas no longo prazo”.

Essa avaliação revela uma transformação importante na dinâmica do poder global: a autoridade internacional baseada exclusivamente na força militar e econômica já não produz os mesmos efeitos observados no século passado.

A crise da hegemonia americana

O cenário contemporâneo aponta para uma transição geopolítica complexa. O crescimento econômico da China, a reorganização militar da Rússia, o fortalecimento dos BRICS e a crescente autonomia política de países emergentes demonstram que a estrutura internacional tornou-se menos dependente da liderança americana.

Além disso, crises internas nos próprios Estados Unidos — polarização política, desigualdade social, disputas eleitorais, crises institucionais e perda de confiança nas instituições democráticas — também impactam sua capacidade de liderança externa.

O sociólogo brasileiro Emir Sader avalia que a perda relativa de influência dos EUA está associada tanto ao desgaste de suas guerras internacionais quanto ao avanço de novas potências econômicas globais. Para Sader, a emergência de novos polos de poder representa um desafio histórico à ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

O ex-secretário de Estado Henry Kissinger defendia que a estabilidade internacional depende do equilíbrio entre força e diplomacia. Em sua obra World Order, Kissinger argumenta que a política externa americana precisa estar baseada no diálogo e na cooperação, e não apenas em mecanismos de pressão.

Entre a liderança e o desgaste

Os Estados Unidos continuam sendo uma das maiores potências globais, com enorme influência econômica, militar e tecnológica. Contudo, a insistência em estratégias de coerção e chantagem diplomática pode acelerar o desgaste de sua legitimidade internacional.

O mundo contemporâneo exige formas mais sofisticadas de liderança, capazes de equilibrar interesses nacionais com cooperação multilateral. Em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, a manutenção da hegemonia depende não apenas da força, mas da capacidade de construir consensos duradouros.

A história demonstra que grandes impérios raramente entram em declínio apenas por fatores externos; muitas vezes, o desgaste interno e a incapacidade de adaptação às mudanças globais tornam-se os principais elementos de sua fragilidade.


Referências

  • Colossus: The Rise and Fall of the American Empire — Ferguson, N. (2004). Penguin Books.
  • Soft Power: The Means to Success in World Politics — Nye, J. S. (2004). PublicAffairs.
  • Presença dos Estados Unidos no Brasil — Bandeira, L. A. M.
  • A Teoria da Dependência — Dos Santos, T.
  • Formação Econômica do Brasil — Furtado, C.
  • Por uma Outra Globalização — Santos, M.
  • O Mito do Colapso do Poder Americano — Fiori, J. L.
  • World Order — Kissinger, H. (2014). Penguin Books.

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Mateus Ferreira de Araújo
Cientista Político.

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