Mateus Ferreira de Araújo – Cientista Político
Resumo
O presente artigo analisa o crescimento da população evangélica no Brasil durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010) e Dilma Rousseff (2011–2016), destacando fatores sociais, econômicos e culturais associados a esse fenômeno. Utilizando dados censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pesquisas acadêmicas e estudos internacionais, observa-se que o período foi marcado por significativa expansão das igrejas evangélicas, especialmente pentecostais e neopentecostais. O estudo demonstra que a ascensão evangélica ocorreu paralelamente às políticas de inclusão social, urbanização periférica e ampliação do acesso ao consumo. Conclui-se que o crescimento religioso no período não pode ser compreendido apenas por fatores teológicos, mas também pelas profundas transformações estruturais vividas pela sociedade brasileira no início do século XXI.
Palavras-chave: evangélicos; religião; governos Lula e Dilma; pentecostalismo; transformação social; Brasil.
1. Introdução
O cenário religioso brasileiro passou por intensas mudanças nas últimas décadas. Historicamente reconhecido como o maior país católico do mundo, o Brasil registrou crescimento acelerado da população evangélica entre os anos 2000 e 2016, período correspondente aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os evangélicos representavam 15,4% da população brasileira no Censo de 2000. Em 2010, esse percentual alcançou 21,6%, enquanto os dados do Censo de 2022 apontaram 26,9% da população nacional (IBGE, 2022). Paralelamente, houve redução contínua do número de católicos e crescimento do grupo sem religião.
O objetivo deste artigo é analisar os fatores associados ao crescimento evangélico durante os governos petistas, observando os impactos sociais, econômicos e políticos desse processo.
2. Metodologia
A pesquisa possui caráter qualitativo e quantitativo, baseada em análise bibliográfica e documental. Foram utilizados dados do IBGE, estudos do Pew Research Center, artigos científicos da Universidade de São Paulo (USP) e reportagens especializadas sobre demografia religiosa no Brasil.
A metodologia fundamenta-se na análise histórica comparativa dos indicadores religiosos entre os anos de 2000 e 2022, com foco específico no período 2003–2016.
3. Crescimento Evangélico no Brasil
3.1 Dados demográficos
O crescimento evangélico brasileiro tornou-se mais evidente no início do século XXI. O IBGE registrou:
| Ano | Católicos | Evangélicos |
|---|---|---|
| 2000 | 73,6% | 15,4% |
| 2010 | 64,6% | 21,6% |
| 2022 | 56,7% | 26,9% |
Os dados revelam redução progressiva da hegemonia católica e crescimento contínuo das denominações evangélicas, sobretudo pentecostais e neopentecostais.
Segundo o Pew Research Center (2013), grande parte dessa expansão ocorreu por meio da conversão religiosa de ex-católicos, especialmente em áreas urbanas periféricas.
3.2 Urbanização e periferias
Pesquisadores destacam que o crescimento evangélico esteve diretamente relacionado à expansão urbana e às periferias metropolitanas. As igrejas evangélicas desenvolveram forte presença comunitária em regiões marcadas por vulnerabilidade social, oferecendo apoio espiritual, acolhimento familiar e redes de solidariedade.
Mariano (2011) observa que o pentecostalismo brasileiro consolidou-se por sua capacidade de adaptação às realidades locais, utilizando linguagem popular, intensa presença midiática e estrutura descentralizada.
4. Governos Lula e Dilma e Transformações Sociais
4.1 Inclusão social e expansão do consumo
Durante os governos Lula e Dilma, o Brasil apresentou crescimento econômico significativo, redução da pobreza e ampliação dos programas sociais, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida.
Segundo Singer (2012), essas políticas favoreceram a ascensão econômica das camadas populares urbanas, justamente os segmentos onde o crescimento evangélico foi mais intenso.
4.2 Religião e capital social
As igrejas evangélicas funcionaram como importantes espaços de produção de capital social, oferecendo redes de apoio comunitário e identidade coletiva.
Putnam (2000) argumenta que instituições religiosas fortalecem vínculos sociais e ampliam a confiança comunitária, fenômeno observado com força no contexto brasileiro.
5. Crescimento Político da Influência Evangélica
Durante os governos petistas, ocorreu a ampliação da chamada “bancada evangélica” no Congresso Nacional. Segundo Machado (2015), lideranças religiosas passaram a influenciar debates sobre costumes, educação e políticas públicas, consolidando nova força política no cenário brasileiro.
6. Discussão
O crescimento evangélico entre 2003 e 2016 não pode ser explicado exclusivamente por fatores religiosos. Trata-se de um fenômeno multifatorial, relacionado à urbanização, mudanças socioeconômicas, transformação cultural e reorganização das formas de sociabilidade nas periferias urbanas.
7. Conclusão
O crescimento evangélico durante os governos Lula e Dilma representa uma das principais transformações socioreligiosas do Brasil contemporâneo. O fenômeno reflete mudanças estruturais mais amplas da sociedade brasileira, incluindo reconfigurações econômicas, urbanas e políticas.
Referências Bibliográficas
IBGE. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.
IBGE. Censo Demográfico 2022. Brasília: IBGE, 2025.
MACHADO, Maria das Dores Campos. Religião e Política no Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: FGV, 2015.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2011.
PEW RESEARCH CENTER. Brazil’s Changing Religious Landscape. Washington, 2013.
PUTNAM, Robert. Bowling Alone. New York: Simon & Schuster, 2000.
SINGER, André. Os Sentidos do Lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SOUZA, Jessé. A Ralé Brasileira. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
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